A avaliação dos professores em 1875: o caso de Covas do Barroso

Em baixo, pode-se verificar como era feita a avaliação dos professores há 134 anos. Diz respeito a um inquérito levado a cabo pelo inspector do 5º Círculo Escolar, António Roque da Silveira, às escolas do Concelho de Boticas, em 1875, mais especificamente à escola primária de Covas do Barroso e ao seu professor Pedro António Vieira (julgo que este senhor chegou a ser presidente da Câmara Municipal de Boticas entre 03/01/1914 e 01/01/1915) .
Não se fazendo uma comparação com os mecanismos e características da actual avaliação dos professores, a impressão que fica é que a preocupação com a avaliação da capacidade pedagógica, os métodos de ensino e os programas curriculares utilizados; o zelo e a assiduidade dos professores, o funcionamento escolar e as formas de registo de matrículas, de faltas e do aproveitamento escolar não são de agora. Poderia ser este o modelo simplificado de avaliação? Ministério e sindicatos concordariam?


Ver o resto da avaliação geral das condições da escola, do professor e dos recursos pedagógicos e da frequência e resultados dos alunos carregando em

Respostas ao inquérito de 1875

Quesitos aos Inspectores das Escola Primárias mantidas pelo Estado

Inspector do 5º Círculo Escolar

António Roque da Silveira


Districto de Villa Real
Concelho de Boticas
Freguezia de Covas de Barroso
Escola primaria do 1º grau com sede em Covas de Barroso


Da casa escolar, sua mobília e utensílios

1º Está bem situada a escola para a concorrência dos alumnos? Está

2º A quem pertence o edifício? A Irmandade das Almas.
É cedido gratuitamente ou é alugado? Cedido gratuitamente.
Quem paga o aluguer? Prejudicado.
Qual o preço annual do aluguer? Prejudicado.

3º O edifício está em bom estado de conservação? Não.
Está em boas condições moraes e pedagógicas? Moraes sim, pedagógicas não.

4º Há no edifício só uma sala para os exercícios escolares, ou quantas? Só uma.
Para quantos alunos alumnos é suficiente a capacidade da aula principal? Para 30 alumnos.
Para quantos a das outras salas? Prejudicado.

5º Tem luz e ventilação sufficientes? Não.
São satisfatórias as outras condições hygienicas? São

6º Há no próprio edifício da escola casa para habitação do professor? Não há.
É-lhe dada gratuitamente? Com mobília ou sem ella? Prejudicado.

7º Estão em bom estado a mobília e os utensílios da escola? Não.
São sufficientes para o número de alumnos que regularmente a frequentam? Não.
Serão sufficientes para um curso de sessenta alumnos? Não

8º Quem ministrou a mobília e utensílios escolares? A Junta de parochia
A cargo de quem está a sua reparação e conservação? Da mesma Junta.

9º A quantos alumnos, no anno lectivo de 1873 a 1874, foram fornecidos gratuitamente papel, pennas e tinta, e por quem? A nenhuns.
Há ajuda de custo permanente arbitrada para essas despezas? Qual, e por quem é paga? Não ha.

10º Há alumnos que, além d’aquelle subsidio, recebem outros auxílios, taes como o de compêndios gratuitos, vestuário, etc.? N’esse, por quem são fornecidos, e a quantos alumnos o foram no anno lectivo de 1873 a 1874? Não há.

11º Há na localidade biblioteca popular? Por quem instituída? Não há.
Funcciona no edifício da escola, ou em casa separada? Prejudicado.
Quem está encarregado da guarda e administração dos livros? Prejudicado.
Recebe gratificação por esse serviço? Por quem paga? Prejudicado.
Há catalogo dos livros por que se compõe a biblioteca, organisado segundo as instrucções de 20 de Janeiro de 1871? Prejudicado.

12º Tem havido leituras publicas feitas pelo professor, ou por qualquer outra pessoa? Não
Qual o resultado dellas? Prejudicado.

13º Há no local da escola commissão promotora de ensino primário? Não há.
Qual tem sido o resultado dos seus serviços? Prejudicado.

Observações geraes acerca do edifício, mobília e utensílios escolares

Tanto o edifício como a mobília escolar estão em más condições, utensílios não há nenhuns.


Do professor e do serviço escolar

14º Nome do actual professor? Pedro António Vieira.
É secular ou ecclesiastico? Secular.
Sua idade? 29 annos.
Está em bom estado physico? Está.
Quais as suas habilitações litterárias? Concurso ao Magisterio primário.

15º O professor é vitalício, temporário ou interino? Temporário.
Quanto tempo tem de serviço no magistério publico? 29 meses.
Quanto na respectiva cadeira? 29 meses.

16º O comportamento moral e civil do professor é bom, ou medíocre? Bom.
A sua capacidade litteraria é distincta, regular ou medíocre? E a sua aptidão para ensino? Regular tanto a sua capacidade literária como a aptidão para o ensino.

17º o professor rege a cadeira com zelo e assiduidade? Rege.
Mantem a disciplina na escola? Mantem.
Conserva-a em bom estado de limpeza? Conserva.
Tem ajudante, ou ajudantes? Com auctorisação superior, ou sem ella? Não tem.

18º O Professor rege só a aula diurna, ou também curso publico nocturno? Rege aula diurna e curso nocturno.
Dá uma só lição diurna, ou duas? E por quantas horas cada uma d’ellas? Duas de 3 horas cada uma.
Havendo uma só lição diurna, com que autorização supprimiu a outra? Prejudicado.
Havendo curso nocturno, por quantos mezes, e em que epocha do anno de 1873 a 1874, regeu esse curso? Por 5 meses, de Novembro de 1873 a Março de 1874.
Quantas noites por semana e quantas horas por noite? 6 noites e 3 horas por noite.

19º Funcciona actualmente o curso nocturno? Em que dia se abriu no corrente anno lectivo de 1874 a 1875? Não.
Acha-se estabelecido no próprio edifício da escola, ou em local separado? Prejudicado.
Quem paga as despezas de luzes e material da aula nocturna? Prejudicado.

20º o professor ensina particularmente? Não.
Só instrucção primaria, ou também disciplinas da secundaria? Prejudicado.

21º Exerce alguma outra profissão estranha ao magistério? Qual? Não.

22º Quaes os vencimentos do professor, provenientes de ordenado do estado? Quaes de gratificações (ordinária e extrordinaria) pela regencia da cadeira? Quaes pela do curso nocturno? 90$000 annuaes pelo estado, 20$000 de gratificação ordinária.
Por quem é paga cada uma d’essas gratificações? Pela Camara Municipal.

23º Havendo ajudante, tem este algum vencimento? Quanto, e por quem é pago? Prejudicado.

24º Qual é o modo de ensino adoptado na escola? Misto composto de mutuo e simultâneo.
Qual o methodo que o professor emprega no ensino de cada uma das disciplinas? Em leitura syllabação moderna, em escripta imitação, em arythmetica, systhema métrico, grammatica, doutrina, historia e chorografia o socrático.

25º Há programmas organizados pelo professor? Para todas as disciplinas, ou só para algumas, e quaes? Não há.

26º Quaes os compêndios mais usados na escola? Cartilha do Abbade Salamonde, Cathecismo da dioceses de Montpellier, Manual Encyclopedico, Grammatica portuguesa de Bento José d’Oliveira, Systhema métrico de Moreira de Sá, Chorografia, Historial de Portugal e Doutrina Christã do mesmo author.

27º Os registos de matrícula, faltas e aproveitamento dos alumnos, são regulares ou irregulares? São todos regulares, menos o d’aproveitamento que não tem.

28º Quaes os castigos, que o professor costuma applicar aos alumnos? Admoestação, reprehensão e castigos corporaes.

29º Quaes as recompensas? Elogios.
Havendo prémios, quem custeia a respectiva despeza? Não há.

30º Há exames annuaes na escola? Não há.
Como é composto, e por quem nomeado, o respectivo jury? Prejudicado.

Observações geraes sobre o professor e serviço escolar.

O proffessor está em boas condições e desempenha os seus deveres com cuidado.


Dos alumnos, sua frequência e aproveitamento

31º Qual foi (em geral) o aproveitamento dos alumnos na escola diruna, em relação ao tempo de frequência: muito regular, ou pouco? Regular.
- Sendo pouco, quaes as causas prováveis? Prejudicado.

32º Qual foi (em geral) o aproveitamento dos alumnos no curso nocturno, em relação ao tempo de frequência: muito regular, ou pouco? Regular, isto por informações do professor.
Sendo pouco, quaes as causas prováveis? Prejudicado.

33º Qual o movimento dos alumnos, tanto na escola diurna como nocturna, no anno lectivo de 1873 e 1874? (Responde a este quesito, preenchendo o mapa nº1)

34º Quantos alumnos se matricularam (no anno lectivo de 1874 a 1875) só na escola diurna? 84.
Quantos, só na aula nocturna? Quantos em ambos simultaneamente? Prejudicado.

35º Quantos alumnos frequentam regularmente só a escola diurna? 73. Quantos, só a aula nocturna? Quantos ambas simultaneamente?

36º Distribuição por disciplinas e classes, tanto dos alumnos que frequentam como dos presentes ao acto da inspecção, e bem assim dos inspeccionados? (responde a estes quesitos prehenchendo o mappa nº 2)

37º Resultado da inspecção? (Responde a este quesito prehenchendo o mappa nº 3)

Observações geraes sobre a frequência da escola e aproveitamento dos alumnos.




in:
Borralheiro, Rogério Capelo Pereira (1999), O Ensino Primário no concelho de Boticas, 1867-1875, Boticas, Câmara Municipal de Boticas [págs.50-54 e 75-77]

2 comentários:

Anónimo disse...

Conclusão?
perante os parâmetros avaliados, de resposta directa(do avaliado) e baseados, sobretudo, em indicadores administrativos,técnicos e alguns morais, que classificação foi atribuída à escola e ao professor?
Talvez fosse indiferente para os encarregados de educação e sociedade da altura...(não para a do presente)

Ilda (uma inspectora do sec.XXI)

Miguel disse...

Se reparar na ligação que deixei para o blog Casa de Covas 2, onde está transcrita toda a avaliação, poderá ler que "o proffessor está em boas condições e desempenha os seus deveres com cuidado" e que quanto à escola o inspector (do séc XIX) refere que "tanto o edifício como a mobília escolar estão em más condições, utensílios não há nenhuns".
O que eu considero importante de assinalar é que já em 1875 se sentiu a necessidade de se proceder à avaliação dos professores e das condições dos edifícios escolares. Nada mais.
As formas, meios, fins e resultados não foram por mim comentados (nem o serão) no âmbito deste blog.